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Recordando meus pastores

Ao pastor Eli Fernandes de Oliveira




Numa tarde de domingo dos anos de juventude, eu estava sozinho em casa entediado e curtindo um frágil estado de humor – infelizmente, um outro modo de dizer que fazia mau proveito do dia do Senhor. Daí a pouco, comecei a sentir alguma coisa brotando com extrema força em um canto de mim mesmo. Era uma força interior que veio súbita e inesperadamente, mas de modo algum desconhecida; tratava-se do impulso já familiar de faltar à minha igreja para ir ouvir o sermão do pastor Rubens Lopes no culto noturno da Igreja Batista de Vila Mariana.

Tenho por certo de que os jovens de hoje não entenderiam o que tento dizer; não poderiam compreender o prazer e a benção de ouvir Rubens Lopes. Em deferência a eles, pois, evoco o senso da experiência estético-espiritual que os grandes artistas são capazes de proporcionar. Falo em particular do pintor genial, locatário do esplêndido dom de criar na tela mundos de magia e de beleza – inefáveis quadros que capturam o olhar e arrebatam a alma, transportando-a aos arcanos do maravilhoso e do sublime. Rubens Lopes, mutatis mutandis, fazia isso por via da palavra, da qual era artífice supremo. Seus sermões eram, de fato, tessituras da mais fina arte; eram peças urdidas com fios multicompostos de inspiração divina, de eloquência carismática, de tom de voz agradabilíssimo e de um personalíssimo dom da palavra. Por tudo isso, vê-se que minha “fraqueza” recorrente era plenamente justificada. E casos iguais ao meu se multiplicavam em número sem conta por toda parte, deles havendo até em outros Estados da federação, de onde vinha gente movida pela mesma motivação de ouvi-lo. Que o digam os anais da história dos batistas; que eles testemunhem por mim sobre a ventura e a benção de ouvir esse orador de eloquência mágica e magnetizadora – fosse pregando a pequenos grupos, fosse a multidões em praça pública.

A questão é que, naquela tarde de domingo, eu tinha sólidas razões para não me ausentar do culto de minha igreja. E asseguro que lutei muito – mais do que costumava fazê-lo – contra a voz da consciência, que parecia martelar repetidamente as “sólidas razões”. Havia, primeiramente, o fato de a minha igreja contar, na ocasião com um número reduzido de membros, aliado ao de que ela vivia momento todo especial, que era o de estar com pastor recém-empossado, encarecendo-se, com isso, todo apoio e todas as forças unidas em fase tão decisiva. Depois, havia a razão de que o pastor empossado era, reconhecidamente, pregador de escol, um dos principais da denominação.

Apesar de tudo, não teve jeito mesmo; deixei-me sucumbir ante os imperativos de que falei. Às sete em ponto, lá estava eu posicionado em um bem escolhido banco, com as lentes dos óculos aprumadas e fixas na direção de onde haveria de surgir o pregador que tanto admirava; dali poderia acompanhá-lo adentrando o proscênio, no seu caminhar seguro e decidido, envolto em halo pessoal de autoridade, a infundir, como sempre acontecia, compenetração e reverência por todo o recinto do santuário.

Foi quando tudo se fez surpresa. O pregador, de fato, acabava de adentrar, mas não era Rubens Lopes. E quem era, então, que via surgir bem à minha frente, se encaminhando, lépido, para as proximidades do púlpito? Tornei a aprumar as lentes, e ... êpa! Será que estava vendo “coisas”? Não, não estava. Via exatamente o que via: Artur Gonçalves em pessoa, o pastor recém-empossado na liderança da minha Igreja (em pouco, saberia que era o mensageiro substituto de Rubens Lopes, que estava viajando à Europa).

Naquela noite, a uma surpresa seguiram-se outras. Uma veio em forma de oportunidade, primeira e única, de conhecer por dentro o gabinete do pastor Rubens Lopes. A outra foi a de ser levado dali por Artur Gonçalves até sua residência, onde permaneci por inesquecíveis momentos, desfrutando de uma mesa de jantar ao lado dele e de toda família, mas, principalmente, da fina hospitalidade, delicadeza e banquete de amor cristão reinantes no lar. E, em horas tardias da noite, voltava eu para casa, trazendo na alma muito regozijo e festa – nem sombra do tédio que me afligira durante a tarde.

No entanto, nas suas reviravoltas implacáveis, o tempo calou as vozes muito amadas dos dois pastores da minha juventude e me transformou num homem de cabelos brancos, distante muitos anos daquela noite em Vila Mariana. Mas, o episódio que relato vinca a memória e resiste ao tempo; ficou imperecível na alma como relíquia de uma história pessoal que só se faz inteligível à luz de ações pastorais e cujo começo se dera na adolescência com João Falcão Sobrinho, querido pai na fé e pastor que me havia marcado a fogo.

Seja como for, a mirada retrospectiva que ora me ocupa recusa atitudes de saudosismo ou pura nostalgia – eis que a motivação e as forças que a comandam fundam-se, antes, na história viva de transformações radicais dos tempos correntes. Situo o olhar nesta contemporaneidade ávida por novos estilos e ébria de imagens, de novas linguagens, retóricas e estratégias, discernindo, por detrás do confuso e emaranhado dela, genuínos ministros de Deus. Homens sobre quem as pessoas, vendo-os passar, exclamariam sem hesitação: “aí vão verdadeiros servos de Jesus Cristo!”; “vejam como os novos Rubens Lopes e Artur Gonçalves dão continuidade à obra santa; observem o quadro: de um lado, os aflitos trazendo-lhes “aquilo que dói” e, de outro, eles – pastores das atuais gerações – com mesas postas servindo àqueles banquetes de pão espiritual, de “pão angélico”, que sacia e deixa a alma em regozijo e festa”.

Por ser assim, eu os homenageio com gratidão e suplico ao Superior Mestre de Nazaré que cumule com os bens dos céus os pastores batistas de um modo geral.

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