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Professor Elon Macena (‘in memoriam’)

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Macena (à dir.) é homenageado por seus 50 anos de magistério


“Habilidoso no trato com pessoas”, “honesto”, “ponderado”, “líder cristão”, “servo”, “humano”, “afetuoso”, “carinhoso com as crianças do Colégio Batista Brasileiro”. Palavras assim soaram nos pronunciamentos emocionados de pastores, professores, alunos e amigos no Salão Nobre do Colégio Batista Brasileiro, em São Paulo, em 17 de dezembro de 2016, durante o culto fúnebre do professor Elon Macena. Do meu assento, ouvia atento e, intimamente, dava pleno assentimento à veracidade daquelas palavras. Pois, examinando bem, me julgo pessoa credenciada a fazê-lo. Vamos aos fatos.

Nas décadas de 1980 e 1990, costumeiramente eu comparecia a um órgão central da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo para reuniões ou cursos de capacitação. Em diversas ocasiões, porém, os encontros eram realizados nas dependências de uma grande escola pública contígua ao prédio daquele órgão. Numa das vezes, ocorreu-me a grande surpresa de encontrar o diretor no pátio da escola em plena lide com alunos. Era nada menos que Elon Macena. Dez anos antes haviam me apresentado a ele na sede do Lar Batista de Crianças, mas agora, notando que não me reconhecera, eu o abordava fazendo-me passar apenas por supervisor de Ensino. Longa conversa tivemos então sobre educação, ainda que, volta e meia, interrompida por funcionários e alunos lhe trazendo problemas ou papéis para assinar. Eu o avistaria algumas vezes mais no ambiente daquela escola, mas ficando apenas na troca de cumprimentos. De qualquer modo, “avistaria” não encerra o elemento semântico exato, posto que passei a observá-lo meio que secretamente. Por estar eu fora da igreja, ou talvez por outra razão menos nobre, o fato é que o espionava discretamente, ou, se quiser, eu o espreitava com mil olhos para saber se ele se comportava adequadamente na escola como um verdadeiro cristão batista. E digo sim: ele nunca me decepcionou.

Anos se passaram e eu me filiei à mesma igreja dele — da Liberdade — e quando lhe contei da “espionagem”, riu muito. Na igreja, fizemos uma boa caminhada conjunta, principalmente como integrantes do Conselho de Educação Cristã. Durante anos, após nossas reuniões às quintas-feiras à noite, ele me dava carona até uma estação do metrô. Mas o tempo do trajeto, de tão curto, ocasionava frustrante interrupção do assunto a que nos aferrávamos — educação, sempre. Ele falando da gestão dele em um CEU (Centro Educacional Integrado), assim como (ultimamente) do Colégio Batista, ao qual estava preso pelo coração.

Ora, todos sabem que os apaixonados por educação não conseguem manter a calma quando discutem problemas afetos à área. O professor Elon conseguia fazê-lo. Daí eu propor a inclusão de “moderado” àquele rol de adjetivos acima com que o descreveram e explicaram.

Presente bem mais cedo no Colégio Batista, local do velório, em obediência a um horário inicialmente anunciado, fui informado de que a chegada do corpo se atrasaria em duas horas. A essa constatação, e vendo que não suportaria a espera em local tão impregnado da pessoa do amigo, e onde tantas vezes havia proseado com ele, ganhei a rua de imediato, num jeito de fuga. Em instantes me vi descendo e subindo ruas sob o Sol forte daquela tarde triste a empanar-me a vista, e tendo a alma acossada pela ameaça do não-sentido e também por mil perguntas irrespondíveis (as perguntas que inutilmente fazemos quando sobrevém a morte, das quais falaria o pastor Nelson Pacheco no culto horas depois). Fui seguindo. Finalmente, adentrei um grande shopping center para ver se espaireceria a cabeça. Tudo em vão. O rosto do Elon estava por toda parte; sua lembrança vinha em primeiro plano, sobrepujava tudo e todos no entorno — até mesmo os ricos cenários e enfeites de Natal. Mais uma vez, fazíamos caminhada conjunta.

No retorno, subi a pé a Rua Monte Alegre, bairro das Perdizes. E o que aconteceu no exato instante em que  cheguei na esquina da Rua Homem de Melo? Isto: o carro da funerária entrava em ré por um dos portões do colégio bem à minha frente. Tal inesperado evento não me surgiu como mera coincidência, tampouco me pareceu destituído de maior significação. Ao contrário, eu o tomei como uma espécie de cortesia da Providência, favorecendo-me a oportunidade de, emudecido e sozinho naquela esquina, despedir-me do Elon. Instante veloz, mas suficiente para dizer em pensamento: “Até breve, mestre e irmão; no Reino de Deus, daremos prosseguimento às nossas conversas.”


Nilberto de Matos Amorim

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