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Queremos mentiras novas


É fabulação falar de “mentirômetro”, isto é, de aparelho de medir mentiras. Mas, invento tão extraordinário, se existente, seria de inestimável serventia a um povo que vive em meio a mentiras e trapaças. As medições certamente apontariam que a mentira é endêmica entre nós – possivelmente, essência atávica às nossas instituições. Principalmente, descobriríamos que, no Brasil, a mentira é a grande força propulsora do campo político, este superando de longe todos os demais na matéria.

Vivemos, porém, no mundo real e – sabemos – há indomesticável hiato entre a fabulação e o mundo como ele é, sobretudo, em se tratando do assunto aqui considerado. O que tento deixar claro é que estamos em tempos de campanha eleitoral e, por conseguinte, correndo risco de nos tornarmos vítimas do grande mal da mentira, pois é período em que ele usualmente se espalha e alcança o clímax do paroxismo.

Ora, é a própria obviedade dizer que as disputas eleitorais entre nós são qualquer coisa, menos ocasião para a publicização de plataformas ou projetos político-programáticos. É mais próprio dizer que se trata de um torneio de pantomima, teatralidade, distorção e manipulação da realidade. Isso porque os competidores que entram em campo – grande parte deles – são aventureiros, tagarelões, mercenários e mágicos transmutados em belas imagens visuais. É verdade que, desta vez, campeões pesos-pesados não disputarão diretamente, por estarem atrás das grades, mas continuarão parcialmente a dar o tom, o escopo e o estilo por meio de congêneres – discípulos, filhos, ventríloquos etc. A arte da política, mais uma vez, será confundida com estratégias de sedução à base da astúcia e de promessas ocas; numa palavra, confundida com o cerco ao eleitor mediante as armas da falsidade. O sistema todo espelha a derrocada da politica nobre e a degradação dela em contencioso aborrecido no qual a verdade sai derrotada e o País desclassificado nos índices da decência.

E o pior é que o vezo prossegue depois que os vencedores (no âmbito federal, estadual e municipal) se instalam nos gabinetes palacianos. A experiência histórica demonstra bem que os mandatos têm sequências monotonamente previsíveis: logo à saída, as alianças com siglas partidárias falazes — isso significando fome pantagruélica de poder, loteamentos de cargos, balcão de negócios e butim do Estado. De seguida vem o arrependimento do povo, ao descobrir que elegeu um governante mentiroso até as pontas dos cabelos, carecendo este, amiúde, cercar-se de assessores, conselheiros e advogados para se defender — em detrimento das funções próprias de governo.

Numa época em que o declínio da verdade não era tão profundo quanto ao que se dá atualmente, Rubem Alves comentou a frase “queremos mentiras novas”, pichada por estudante em muro de Lisboa (Portugal), fazendo, no fim, um pedido aos nossos políticos: “Que mintam, mas respeitem minha inteligência”. O atendimento ao pedido, no entanto, revela-se impossível: o ataque aos nossos cérebros virou coisa banal num cenário em que a mentira parece abarcar o espectro global dos poderes constituídos. Penso particularmente no Poder Judiciário; nas cenas de acrobacias mentais de determinados juízes ao pronunciarem sentenças sobre as torpezas dos nossos políticos, e imagino Rubem Alves revoltado, cobrando, aos brados, dos juízes: “Que falem em francês, que falem em alemão ou latim, mas respeitem minha inteligência”.

Nilberto de Matos Amorim

(Publicado no JORNAL APASE do mês de setembro de 2018, p. 10)

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