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A estrada 


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Ao meu lado ia o primo José Loura, cicerone e condutor do veículo. Mas, no momento, pouco ou nada falávamos; coisa que tinha a ver certamente com o baque das emoções vividas à hora do almoço, cujas imagens, pessoas e cenas ainda inundavam nossas mentes. Doravante, porém, os cenários da estrada foram tomando lugar; eu seguia atento a eles, buscando discernir pés de catingueira, de marmeleiro, umburana, de favela e assim por diante. Chuvas boas e contínuas haviam caído recentemente e, lembro-me, a certa altura paramos e saímos do carro para admirar e respirar o verde da mata. Foi oportunidade também para perscrutar o ambiente na tentativa de ouvir o canto de um fogo-pagou, de uma juriti, o pio de um cancão ou, quem sabe, dar com o surgimento de algum teiú pelas proximidades.

Porém, não me reporto aqui a meros episódios isolados do mundo externo; sim, do quanto este me afetava, mexia e remexia, e como eu me esforçava por manter a unicidade interior, isto é, por rejuntar peças, articular a multiplicidade dos elementos num todo de significado coerente.

Ainda assim, uma parte de mim se desgarrava, não se fixava no momento presente: eu me via às voltas com um menino trafegando a pé e sozinho por aquela estrada. Voltava do vilarejo onde tinha ido comprar sal e café a mando da mãe; mas voltava, bem entendido, na escuridão de uma noite sem lua e tomado de apreensão e medo de onça e de “alma do outro mundo”. Como se transportado por tais lembranças, eu podia ver o menino chegando em casa na exata hora do evento que mudaria sua vida.

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Nisso, meu companheiro gira o volante do veiculo e estaciona à beira da estrada. “Chegamos”, exclama ele. Mais que depressa, desço do carro e alcanço uma clareira, onde pedras e montículos de argila jaziam marcando o chão. Era nada menos que nosso lugar de destino e, ao mesmo tempo, o lugar no mundo onde mais se sentia a inclemência do tempo devorador. Dizer isso é dizer do esforço que ele demandou para as reconstituições; assim, ora indo, ora voltando — os olhos sempre girando em torno — eu mapeava, comparava e calculava: “Aqui ficava a casa; à frente, no baixio, o açude; acolá, à esquerda, o curral e, mais além, o chiqueiro das cabras”. “É assustador; é absurdo que alguém tenha nascido neste lugar”, pensava comigo mesmo.

Pouco depois, ouvi do primo: “Tinha inteira razão quem disse que você saiu da sepultura ao ir embora daqui”. A afirmação fora proferida na cidade baiana de Juazeiro pelo dono do cartório de registro civil — de quem eu tinha a assinatura na certidão de nascimento — quando eu, retirante, estava a caminho de São Paulo. Ouvindo-a agora do primo, a memória como que foi se abrindo e trazendo à tona fatos soterrados cinquenta anos no tempo. Véus que encobriam a história pareciam se remover. Lembrava que havia nascido e crescido ouvindo “São Paulo!”, “São Paulo!”, isto é, narrativas que celebravam e engrandeciam uma terra de muita prosperidade, fartura e dinheiro. E quando, finalmente, chegou o dia de ir conhecê-la, eu mal continha a euforia; foi acontecimento de pura empolgação aquele em que eu — junto com a mãe e quatro irmãos — me vi na estrada fazendo o percurso tão sonhado. Agora, porém, eis-me de volta a contemplar amorosamente aquele lugar onde respirara pela primeira vez e a me penitenciar pela atitude assumida ao partir, todo o contrário do que vi da parte de muitos em igual situação — levas e levas em prantos e, alguns, dando adeus até para as pedras, árvores e capoeiras.

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Mas, o estar de volta dava provas de que aquele torrão-berço era muito mais que uma sepultura; na verdade, ele era uma realidade que se instaurava soberana. Eu tinha visto o mundo, havia me submergido no som e na fúria de povos e multidões, mas os cenários e figurações da infância na terra natal permaneciam imorredouros. Tudo corria como se, das duas sequências da vida — infância e velhice — a primeira fosse a que mais vibrasse e prevalecesse.

Foi então que uma personagem passou a dominar por completo a minha mente. Ela me aparecia na cena daquela noite quando entrei em casa vindo do vilarejo em que tinha ido comprar sal e café. Estava ajoelhada à cabeceira da cama de meu pai, auxiliando-o na partida deste mundo; prendia a mão dele entre as suas com uma vela acesa e bradava: “Lembre-se de Jesus! Lembre-se de Jesus”. Mas, era nos eventos de sua proeza maior — remoção dos filhos para terras distantes e estranhas — que ela avultava vivíssima. O primeiro deles deu-se já na pequenina estação de trem de Arizona da antiga Leste Brasileira. A aproximação do trem, cintilando ao Sol, foi visão tão majestosa e magnifica para mim que, enquanto todos haviam embarcado, eu permanecia estático, tomado de admiração e estupor ao lado da “Maria fumaça”, estacionada com seus rangidos de ferragens, gemidos e vapores. Então, no último instante, surgem as mãos da personagem me agarrando e conduzindo ao lugar em que devia estar. “Não vê que o trem já fez a partida?”, ralhou ela. Evento semelhante haveria de se repetir vezes sem conta em muitas outras estações que viriam, de trem ou da vida; mãos que nunca faltaram ao menino matuto e assustado a conduzi-lo adiante, sempre adiante.

E quando retornávamos à casa dos parentes da hora do almoço — o Sol já se escondendo no poente — eu atinava para o fato de que era a segunda vez que batia em retirada por aquela mesma estrada. Atinava também para o enorme fosso de mudanças que se havia cavado entre as duas ocasiões. Pois, da primeira vez, eu era um menino e o futuro me pertencia. Partia exultante, inebriado e “sonhando adiante”. Era a subida. Dessa vez, porém, nada havia de semelhante; eu era um homem de cabelos brancos; o horizonte havia se contraído e chegara o “poente da vida”. Além disso, eu não contava mais com as mãos da minha mãe a me guiar. Era a descida.

Definitivamente, aquela estrada não haveria de me conduzir ao que buscava; isto é, os cenários do menino de antigamente não seriam devolvidos ao homem de cabelos brancos.

Nilberto de Matos Amorim

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