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Morrem as utopias, surgem os ‘apocalipsismos’


Apocalipse

Fica dito desde logo que é texto ficcional, o qual, ecoando e se nutrindo do grande tema bíblico do apocalipse, deste se distancia a anos-luz, devido às incongruências com o saber teológico-doutrinário estabelecido na revelação da Palavra de Deus. Melhorando a explicação: é uma obra de imaginação, fruto de um esquema que a tudo se permite e cujo conteúdo é muito pobre de Deus e muito rico de anjos, demônios, necromancias, feitiçarias e bruxarias. Assim, e como se não bastasse a índole do tema que aborda, o livro carrega-se de episódios extremos e assustadores. A tal ponto que o leitor descobrirá a exclusão de Deus e do Senhor Jesus Cristo. Descobrirá, estupefato e perplexo que Deus — segundo boatos correntes nos céus — havia deixado de ser, dado que, fazia muito, dissipara a própria essência, ou seja, convertera-se em energia pulsante no interior dos indivíduos humanos. Pior ainda — e, aqui a versão verdadeira e oficial dos fatos: Deus estava dormindo; devido ao cansaço, caíra em sono profundo desde o término da sua criação, no sétimo dia.

O certo é que é sobre o chão firme dessa suposta dissipação ou desse sono profundo de Deus que o autor constrói, alavanca e dá sustentação à sua história. E, se é infinito o vácuo cavado pela ausência divina, o escritor supera o problema do seu preenchimento à base de uma infinita incontinência de imaginação, com o divisar no arcanjo Miguel o substituto de Deus. É fato, o Miguel retratado no livro está irreconhecível. Surge como vilão, usurpador tirano e cruel inimigo da humanidade. É um Miguel que se assenhoreia do sistema de poder e do lugar do Criador, com vistas a realizar antigo projeto de extermínio total da espécie humana, a exemplo de tentativas anteriores quando perpetrou a destruição da Atlântida, da Cidade de Enoque, de Sodoma, o dilúvio de Noé etc. Eis, então, a causa última da deflagração da batalha narrada no livro.

A cosmovisão toda do polpudo volume é, pois, de guerra e conflito. Cobre desde os primeiros movimentos de mobilização das hostes guerreiras até o desfecho final da batalha do “Dia do Ajuste de Contas”, ou seja, do Armagedon, a guerra total que abrange Terra, céu e inferno. Mas, Sphor não hesita em embaralhar personagens de natureza bastante heterogênea: homens, anjos, demônios, monstros, leviatãs, feiticeiros, médiuns (a pitonisa de En-dor, que atendeu pedido de Saul – 1Sm 28.1-12, aparece como heroína máxima no livro), espíritos desencarnados, duendes e fadas povoam, se dividem em partidos, amam, odeiam, mentem e protagonizam a trama da guerra final que, vale dizer, trava-se no plano astral e não no terreno. Da mesma forma, não hesita em fazer transposição de pressupostos e princípios da Bíblia para ambientes contextuais que tem mais a ver com necromancia, espiritismo e mitologia do que com a visão bíblica das últimas coisas. Chama a atenção a recorrência de palavras que se convertem em verdadeiros operadores conceituais da narrativa: “aura”, “energia”, “avatar”, “runa”, “íncubos”, “súcubos”, “fadas”, “duendes”.

After the earthquake

Apocalipsismos

Ficção ou não, a obra em análise dá o que pensar; pede compreensão bem mais ampla que a de uma ficção pura e simples. Isso porque integra um fenômeno que vem se propagando amplamente na atualidade: a floração de apocalipsismos. O que isso significa? Acaso estes se alinham com os ensinamentos das Sagradas Escrituras? O que eles têm em comum com outras narrativas escatológicas que se circunscrevem numa vasta tradição com inúmeras versões por entre povos de modo geral?

Os apocalipsismos a que nos referimos incorporam o espírito destes “terríveis tempos” em que vivemos, isto é, impregnam-se de um sopro ou de uma ressonância da época atual que bem atesta a sua filiação ao ventre fértil da cultura em que se origina e onde outras obras similares também são geradas. São “movimentos que interpretam certas ocorrências do mundo social como sinais de que o fim do mundo é iminente”, tornando-se procedente admitir que são apocalipses sem Deus, gestados nos âmbitos de uma sociedade sem Deus. Portanto, são notavelmente significantes e diríamos que, por intermédio deles, nossa civilização mostra sua verdade, o seu ethos profundo. Daí que o conteúdo deles só se deixa elucidar quando visto à luz dos processos de mudanças do mundo atual.

Ora, entenda-se bem o que se passa à nossa volta. Esculpe-se aí uma civilização marcada por paradoxos, singularidades e por processos de transformações radicais. O contexto cultural ameaça, ou de fato realiza, a volatilização de todas as ordens de significação e de valores com que, antes, se contavam para a orientação da vida. Nele assiste-se à corrosão dos grandes sonhos, das chamadas metanarrativas ou robustas utopias que tanto aplauso e admiração causavam até pouco tempo atrás. Vive-se, de fato, o fim de uma era e a extinção de um mundo, implicando reconfiguração de cenários, emergência de novas sensibilidades, novos poderes, deuses, valores e interesses. É em meio a isso que emerge o fenômeno dos apocalipsismos. Estes, em nosso entender, não se confundem com outras modalidades de escatologias, de que estão fartas as páginas da história e a vida dos povos. Diferenciam-se, por exemplo, de certos movimentos messiânicos, que, tipicamente, se caracterizam pela ocorrência de visões ou transes de líderes, pela busca coletiva de um paraíso terreal ou de uma “Terra sem mal” e pela expectativa do retorno de um herói ou ser divino etc. O fenômeno social de que estamos tratando pode até constituir compósitos de fé e crenças, é bem verdade; pode mesmo se compor de apropriações da Bíblia combinadas a outros tipos de conteúdos de natureza mítico-mágico-religiosos. Contudo, deve ser assumido como integrante daquele rol de criações do indivíduo contemporâneo — ao lado do álcool, das drogas, anfetaminas, calmantes, pornografias e consumismos — para fazer frente à experiência do vazio, do desnorteio e das angústias que o atingem. Ou seja, tais correntes de produções escatológicas, e a substância religiosa que os alicerçam e perpassam, integram o rol de estratégias e inventividades humanas mediante as quais os indivíduos lidam com o vazio deixado pelas grandes utopias perdidas.

Ademais, as imagens de cataclismos e catástrofes com que essas escatologias constroem a visão de futuro não inspiram os indivíduos para um despertamento espiritual nem, tampouco, para a mobilização de esperança e fé. O que se observa é que, não raro, tais imagens acham-se sob domínio do mundo do espetáculo, o qual delas se servem, para provocar assombro e adrenalina. E uma faceta que aí mais se faz visível é a da ação do mercado e das indústrias culturais, os quais, não se detendo nem mesmo diante da glória e majestade de Deus, ousam transformar o Sagrado em simulacro, em algo como mercadorias ou produtos comerciais que são embalados e vendidos juntos com heresias, blasfêmias e espiritualidades bizarras. Observe-se, a respeito disso, a união ilícita que se estabelece entre o mercado e as indústrias culturais, enquanto emissores, e o público, os receptores, formado por colossal número de buscadores de excitação, de gente com fome insaciável de emoção e suspense. A descaracterização e falsificação da escatologia bíblica aí são flagrantes. Não que esta última silencie sobre fenômenos-acontecimentos de causar pesadelos ou gelo na espinha (vide revelações do julgamento e ira de Deus, do Anjo da Morte em ação, das pestes, ais, horror, destruição dos ímpios etc).  A mensagem da escatologia bíblica, porém, não é de morte — ela irradia vida e esperança. Mais que consumação do mundo, aqui se lida com o desenlace glorioso da história da redenção do homem; lida-se, sobretudo, com o desvelamento de um porvir de júbilo e bem-aventuranças para os redimidos, no reinado a ser instaurado de modo inevitável pelo Rei dos Reis; reino do triunfo absoluto do bem sobre o mal que nem o maior dos utopistas ou o mais extraordinário dos cinegrafistas hollywoodianos poderiam conceber. Mas, isso, infelizmente, importa menos ao homem do mundo atual — órfão de utopias e de esperança — que os conteúdos estéreis que lhe são servidos pelas indústrias da ilusão, o que é palpavelmente ilustrado pelo apocalipse segundo Sphor.

Assim é que essas correntes de escatologias ficcionais encontram seu público. Justamente por encobrirem mais do que revelarem a verdade acerca “das últimas coisas” e do dia de ajuste de contas desse público junto a Deus. Patenteia-se, então, a atualidade da Palavra de Deus, que diz: “Esse povo é rebelde; são filhos mentirosos, filhos que não querem saber da instrução do Senhor. Eles dizem aos videntes: ‘Não tenham mais visões!’ E aos profetas: ‘Não nos revelem o que é certo! Falem-nos coisas agradáveis, profetizem ilusões’” (Is 30.9-10). E ainda mais: “Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos”. (2Tm 4.3-4).

Nilberto de Matos Amorim


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