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Escola mentirosa


Pay attention

O resultado é que ele — o leitor — vê-se posto diante de exímio retrato de escola assolada por vícios e degenerações: escola cujas aulas não ensinam, cujos livros e apostilas tapeiam, computadores que dormitam trancados em salas secretas, planejamento de mentirinha, recuperação que é uma farsa, avaliação que é uma balela e projeto que é enganador. E mais, muito mais. Há o currículo proclamando-se interdisciplinar quando, de fato, é uma coleção de disciplinas soltas, fragmentando o conhecimento e incorrendo no mesmo vício da mentira. Veja-se, por exemplo, o que é afirmado acerca da História, que é vista pelo autor como autêntica fábrica de mitos e falsos heróis: “A História que se deveria aprender não é a mítica e vergonhosa farsa de imbecis transformados em heróis … (p. 19)”. O diapasão segue com relação a outras matérias de ensino. E inutil é tentar desmentir Antunes, pois os fatos apontados por ele tem grau máximo de convencimento.

O que parece ficar aquém de convencimento são explicações para as causas do quadro trágico que o livro traz. Daí eu me permitir aqui —  humildemente — sustentar uma hipótese com vistas a suprir tal lacuna. A hipótese é que os anacronismos e perversões apresentados por ele constituem sintomas, efeitos ou consequências de um mal bem mais amplo que é próprio à civilização contemporânea. Ora, sabe-se que os valores ético-morais são elementos tão fundamentais para a educação quanto é a água para o peixe. Mas, o que se tem na atualidade é um terrível vácuo deles. No limite, o que se vê é o desaparecimento das condições de possibilidade, ou seja, dos lastros de valores e significações humanas requeridos para a escola realizar sua obra educadora. O que não significa, de modo algum, isentar a escola de responsabilidade por seus desconcertos (a posição de Antunes é certeira ao denunciar e responsabilizar enfaticamente os agentes escolares por faltarem com tarefas a eles confiadas pela sociedade).

De qualquer modo, a banalização ou presença apenas pro forma de projetos na escola são ocorrências deveras surpreendentes e inesperadas, pois, se há espaço social em que projetos se tornam absolutamente imprescindíveis, tal espaço é o da escola. E tudo fica mais grave quanto mais se tem presente que as ações só se tornam verdadeiramente humanas se em vínculo com projeto digno desse nome, isto é, projeto no sentido antropológico, como elemento unificador das multiplicidades e dispersões, hábil para pôr os sujeitos diante uns dos outros, de modo a enfrentar com reflexividade os próprios problemas, as ameaças e os riscos do seu tempo — risco, inclusive, de desintegração e extinção — e possibilitando tessituras de redes esperançosas de realização de si, singular e coletivamente, e das expectativas comunitárias. Em suma, projeto assumido como o próprio “modo de ser do ser humano”. A conclusão, portanto, é que estamos diante de um fenômeno que se enraiza fundo no próprio caráter da sociedade maior, mísera de projetos e utopias esperançosas.

É claro que o autor não chega ao ponto de sugerir que o mentir se aprende na escola. Em compensação, realça bem a atitude de recusa e de jogo de empurra assumida pela pela escola com relação ao ensino de valores: “Fecha-se assim o ciclo vicioso: a escola passa a bola para a igreja, que toca de primeira para a família, que espera por insttituições específicas, que, por sua vez, a atiram de volta para a escola, onde o ciclo se reinicia.” (p.83). A omissão é simplesmente absurda e escabrosa. Primeiro porque,“enquanto essa discussão esquenta, a corrupção corre solta e, desgastada pela rotina, é encarada como imbatível, a mentira passa a ser aceita como discurso estratégico, o crack agradece, programas deseducativos ganham patrocínios milionários e os traficantes, satisfeitos, locupletam seus lucros”. Em seguida, porque a matéria dos valores se desloca para outras esferas sociais nem sempre honradas, como é o caso de agentes políticos que pregam valores — honra, honestidsade, verdade, dignidade, justiça, dignidade etc. — mas, quando se vai ver, são “mensaleiros, boateiros, gazeteiros, propineiros, ratoneiros e interesseiros que assolam a todos nós” (p.43).

Não custa dizer que a análise reconhece as exceções, ou seja, ressalva as escolas de boa qualidade. No mais, está se reportando, sem distinção, a todas — públicas ou privadas, escolas de gente pobre ou de gente rica, escolas de instalações suntuosas ou as que mais parecem “pocilgas”, na terminologia de Antunes. De igual maneira, convém lembrar que o texto — parente próximo de “Valores proclamados e valores reais” de um educador do passado — é duro, mas foi escrito com ternura; aliás, com amor, conforme declaração dele.

Nilberto de Matos Amorim

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