VERDADES E MITOS SOBRE A ASCENÇÃO DA VIOLÊNCIA ENTRE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Inicio minhas considerações evocando a história oferecida pelo prêmio Nobel de literatura William Golding, na obra O senhor das moscas. É a história de todo um precipitar de acontecimentos em cadeia, vivido por um grupo de meninos estudantes, únicos sobreviventes de um desastre aéreo, forçados a se refugiarem em uma ilha deserta do Pacífico. Pouco a pouco, surgem os “estranhamentos”, as “rusgas”, as desavenças e as hostilidades recíprocos. Dilacerantes e destruidoras, essas forças fazem irromper o ódio, os preconceitos, a crueldade, a perseguição, guerra e morte na ilha paradisíaca. Mas, não falta também nessa história trágica outro ingrediente que quase sempre anda de par com a violência: trata-se do poder, com suas manhas e artimanhas. Nunca uma ficção foi tão fiel testemunha da realidade.
A violência é um constituinte da condição humana. O homem já nasce na violência (o parto). E o que dizer da história humana? Registros dão conta de que a roda da violência gira junto com a da história. E quanto à presença da violência nas produções artísticas de todas as épocas? A pintura, a literatura e, mais recentemente, o cinema têm encontrado nela material inesgotável para uso e abuso, para o bom e o mau proveito. Notemos que tantas dessas cenas integram espaços sagrados; são vistas em vitrais de igrejas e catedrais.
De qualquer maneira, a violência complica-se na atualidade, época caracterizada por um complexo de males que fomenta a cultura da violência. E entre os males que fustigam nossa atualidade, existe um que é inexcedível em destrutividade. Falo da erosão dos valores morais. O fenômeno consiste basicamente na perda da capacidade das instituições educativas tradicionais – em especial a família e a escola – “de transmitir com eficiência valores e normas culturais de coesão social.” No ambiente da socialização tradicional, de forte carga afetiva e emocional, era negada à criança o conhecimento de certos segredos da vida; a regra era que tal conhecimento só fosse adquirido progressivamente. Há, na atualidade, um enfraquecimento da capacidade da família, paralelamente a uma excessiva exposição da criança, cada vez mais precocemente, à influência de outras instituições, em particular à televisão que não encobre nenhum segredo à criança. (Tedesco).
Os maus efeitos disso sobre a tarefa de educar ou socializar são imponderáveis. Eis porque é bastante compreensível a “debilidade dos quadros de referência” entre as crianças e jovens, assim como o é também o fenômeno de formação de grupos ou movimentos de contracultura – as tribos urbanas – integrados por jovens. Esses grupos representam “espaços de encontro”, mediante os quais os jovens procuram suavizar as asperezas e as esterilizações simbólicas que os ameaçam com perda da significação e da própria identidade. Mas, muitos desses movimentos, porém, aderem a projetos de morte.
(Síntese de palestra proferida no 17º. Congresso do SINPEEM, Palácio de Convenções do Anhembi, SP., de 16 a 20 de outubro/2006; sinopses, pag. 36)