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Professor: o ator e o tempo

Nilberto
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Não esqueço nunca de um exame oral de língua portuguesa que fiz no início de minha vida de escolar. O professor entrou na sala, sorteou nomes e o meu foi o primeiro que saiu. Em seguida, ordenou-me que ficasse de pé para ler e interpretar um texto literário valendo nota.

    Lembro-me do meu sobressalto e embaraço diante dos colegas, que, de súbito, ficaram cabisbaixos e emudecidos – certamente sob o temor de que a vez deles também ia chegar. No meu caso, acho eu, o embaraço advinha mais da figura do professor, uma personalidade realmente fulgurante e admirável, principalmente pela inteligência e cultura vastíssimas. Agravava ainda a situação o fato de que, na hora do exame, ele assumiu uma atitude extremamente formal, a de um juiz no tribunal. Não resisti: comecei a me sentir como uma espécie de tábua rasa, um ente pequeno diante de sua grandeza, a ponto de mal conseguir manter-me de pé e fitá-lo no rosto.

    Muitos anos se passaram e eu não soube mais do meu professor de literatura. Porém, nunca pude esquecê-lo. O modo dele encarar-me, por detrás de lentes grossas, o avental branco, impoluto, o diário de classe e a caneta metálica que tinha nas mãos, cristalizaram-se em cena multicomposta que sempre trago presente.

     Um dia, nas voltas da vida, e quando eu próprio me havia tornado professor, tornei a encontrá-lo. A partir de então, pude conhecê-lo bem e, conhecendo-o bem, pude descobrir a enorme diferença existente entre sua pessoa real e a figura que todos nós, os adolescentes daquela escola de tempos idos, julgávamos que fosse. Dizendo melhor, pude perceber ser ele oposto do professor rigoroso, de olhar severo e gélido de outrora. Evidente que ele não se lembrava mais de mim. Quando lhe falei sobre o episódio, ele riu bastante e disse: “Bem, naquele tempo, a coisa era assim...”

     Essa experiência suscitou-me certas indagações. Como meu professor conseguia ser tão diferente em sala de aula, por que tão diferente o professor de ontem e o de hoje? Seria ele um fingidor?

Veio-me, então, ao pensamento que o ofício de professor em muito assemelha-se ao de ator, que o dom de representar, interpretar, viver papéis, dar vida a personagens e a ideias, que é próprio de ator, não pode faltar de modo algum ao professor. Ou não será verdade a tão referida multiplicidade de papéis desempenhada pelo professor?

     Confrontemos a missão do ator e a do professor. Flui do ator em cena uma força estranha. Diante da sua representação cênica – os sonhos, os dramas e a morte de todos nós tornados reais – tantas vezes, nos quedamos pela magia com que nos apreende e arrebata. Por seu intermédio, somos, coração e mente, atingidos por não sei quê de inefável que nos possibilita o choro comovido, catártico, assim como o êxtase, a fruição do Belo e a posse do saber e do sagrado.

     Coração e mente. O contato com o ator pode despertar, inflamar, emocionar, comover. Pode, para além disso, apelar à razão, liberar o cérebro, abrir a mente, provocar-lhe as “luzes” interiores. São os atores, enfim, tantas vezes, verdadeiros transmissores das grandes lições da vida e da arte de viver, as quais produzem conhecimentos, discernimento, inteligência e desencadeiam mudanças de comportamento.

     Ora, algo de semelhante ocorre com relação ao professor. Como faz ao ator, o professor também desperta, inflama, emociona e comove com suas lições que nos atingem fundo, coração e mente. Mais ainda, sua missão primeira e intransferível é, precisamente, abrir mentes, provocar o conhecimento, o discernimento, fazer nascer as “luzes” do intelecto humano. 

    É verdade: a sensibilidade e a flexibilidade para viver papéis aproxima o professor do ator. Veja-o em seu palco, que tanto pode ser a sala de aula quanto o laboratório, a biblioteca ou outro lugar, e veja os papéis que alternada ou simultaneamente tem de assumir: figuras parentais, irmão mais velho, amigo confidente, ajudador, facilitador, Jó paciente, psicólogo, mestre, pedagogo, árbitro, bode expiatório...

    “Naquele tempo, a coisa era assim...” É impressionante o peso que tem o tempo no trabalho do professor e do ator, e como deles exige altas doses das já citadas sensibilidade e flexibilidade. Notem como ambos tem que se transformar no tempo e, de acordo com a platéia ou grupo de alunos, mudarem vocabulário, dicção, expressões faciais, mímica e gestualística, se é que desejam sucesso na transmissão da mensagem ou do ensino.

     Quanto ao professor, a noção de tempo torna-se ainda mais crucial. Considere-se o fato de o professor ter que, num só dia, ministrar aulas a grupos os mais diferenciados de alunos, desde classes de universitários até da pré-escola, passando pelos de supletivo, ou de classes de níveis sócio-econômicos contrastantes, p. ex., pertencentes a escola de periferia e da “elite”. Fica fácil perceber o quanto, de fato, o professor tem de ser artista para “traduzir”, “interpretar”, o conteúdo programático de acordo com a faixa etária, nível mental, ritmo, formação e interesse dos grupos de discípulos, e isto quase sempre em “sessões corridas”, sem intervalo e sem tempo para ensaios.

     Ainda há o fato de a tarefa do professor ter uma necessária e especial ligação com o tempo. E, aqui, implica falar-se em passado, presente e futuro; também falar das muitas contradições que isso possa envolver. É que, enquanto representante do passado – dado que é transmissor e guardião de valores, crenças e ideais consagrados da humanidade - o professor deve ser, ao mesmo tempo, uma pessoa inserida no presente; é alguém que não só faz o registro histórico, mas encarna-o e labora na reconstrução do seu tempo. Mas, o professor está também, e muito, voltado para o futuro. Requer-se que ele tenha capacidade de viver à frente, de pressentir, ver antes e anunciar o que vê. Tal como o galo que anuncia a autora e desperta os que dormem.

(Publicado no Jornal dos Professores, São Paulo, maio de 1985)