PONTE JUAZEIRO-PETROLINA

O cenário era de tal beleza e perfeição que nos hipnotizou instantaneamente. Nós o avistamos da janela do trem, logo à aproximação da estação de Petrolina. E, desembarcados, quedamos estáticos e em estupor diante dele, enquanto nossa mãe nos puxava tentando nos remover do lugar.
De fato, o trecho Petrolina-Juazeiro dava-se em forma de quadro magnífico aos olhos dos dois garotos – este que escreve, com nove anos de idade, e o irmão, Luiz, com sete — naquela tardezinha de 1955: o colosso das águas do São Francisco, a ponte monumental sobrepondo-as, a profusão de barcos de velas brancas deslizando sem pressa sobre elas, as ilhas e, avultando imponente na margem oposta do rio, o prédio de arquitetura lindíssima — a antiga estação férrea de Juazeiro.
E era ao pôr do sol. Raios rubro-dourados do poente tingiam tudo, numa explosão de cores que melhorava ainda mais a beleza das duas cidades gêmeas e entrelaçadas, vistas do ponto em que nos encontrávamos. Um mundo de luz e sinfonia visual, mais belo do que qualquer tela de cinema já realizada, uma inefável visão que capturou para sempre o olhar e a alma dos dois meninos — habituados, até então, só com cenários de roças, casas de adobe, bodes, jumentos, calangos, mandacarus, xique-xiques etc. E os dois garotos matutos desembarcaram com coração aos pulos, extasiados ao verem cidade pela primeira vez; quedavam-se maravilhados para verem Petrolina-Juazeiro se abraçando unidas.
Notavelmente, porém, Luiz era o que se mostrava mais eletrizado com o que via, sendo a ponte o que mais lhe chamava a atenção. Evidência, portanto, de que criança é suscetível e apta à contemplação do belo, em outras palavras, de que ele era capaz de contemplar e fruir coisas belas, sublimes e elevadas da vida.
E, no entanto, nossa atitude contradizia o momento vivido pela família, que era a “situação-limite” de quem se separava da terra natal, ou mais especificamente, do roçado humilde e parco situado num recanto de Casa Nova onde a Bahia faz divisa com Piauí e Pernambuco. Momento nada honroso, portanto: pela manhã, as despedidas, as muitas lágrimas de dor e tristeza, uma virada de página da vida e o embarque na estaçãozinha de Arizona da antiga Leste Brasileiro; agora, a baldeação em Petrolina, vidas sem alvos certos nem futuro definido. Vidas reduzidas à insignificância de retirantes.
Três dias depois, transitaríamos da casa do tio Moisés, de Petrolina, para a da tia Odete, de Juazeiro, na outra margem do rio. A notícia nos deixou em estado de euforia, pois estava implícita a travessia pela ponte. E, de fato, nossa visita a Juazeiro foi acontecimento inesquecível. A cidade tinha sal, aromas e temperos próprios. A casa da tia ficava a poucos metros do cais, local de forte comércio e de emanações aromáticas de frutas, legumes e outras mercadorias de recordação permanente.
À hora da volta, porém, alguém sugeriu que não a fizéssemos de marinete (designação usual à época para ônibus) e, sim, a pé, a fim de aproveitarmos o panorama de cima da ponte. Tipo contemplativo, eu gostei intimamente da ideia sem o expressar, mas Luiz, ativo e extrovertido, demonstrou logo toda sua exultação.
Dito e feito: de cima da ponte o quadro era de imensurável beleza, o clímax se dando à altura da Ilha do Fogo, local onde se ouvia em plena intensidade o estrondar dos potentes geradores de energia elétrica nela instalados.
Tudo parecia perfeito naquele final de tarde. Mas, numa fração de segundo, o universo todo se metamorfoseou. Luiz, afoito e tonto de embriaguez com o que via, desprendeu-se da mão materna e pisou fora da calçada de pedestres. E eu me recuso a delongar na cena do Luiz abatido, esvaindo-se em sangue, atropelado por um automóvel guiado por motorista bêbado.
Ele era traquina e vivia pregando susto na gente, mas, dessa vez, era a mais cruel e irremediável das verdades: víamos Luiz, sem vida, esvaindo-se em sangue estirado sobre a ponte. Logo mais, o veríamos sendo carregado aos ombros por tio Moisés; a camisa deste empapada de sangue. Aquele já não era Luiz. Num abrir e fechar de olhos, o verdadeiro Luiz, aquele que desejava ver mundos — mais do que nós outros — havia sido tomado para outra e inesperada viagem.
Quanto aos demais irmãos, tivemos de prosseguir com a nossa, sofrendo a crueza do golpe, junto de uma mãe mergulhada em assombrosa consciência culposa. Ela poderia se expressar com as palavras de Guimarães Rosa: “O São Francisco partiu minha vida em duas partes.”