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NOVELA CAMINHO DAS INDIAS É DESENCAMINHAMENTO

Caminho das Índias (Glória Perez/Marcos Schetchman, Globo Comunicação e Participação S. A., 2009) é telenovela ora transmitida em um canal de televisão - uma a mais a se somar ao já copioso exemplário do gênero que veio a se tornar instituição nacional com fundas raízes no imaginário cultural do nosso povo.

  
Desde os inícios da trama, divisa-se que versa sobre a paixão amorosa entre os indianos Maya (casta economicamente favorecida) e Bahuan (casta dos “intocáveis” ou miseráveis), proibidos, portanto, um para o outro em razão da tremenda barreira de castas que os separa. Um casamento arranjado pelos pais acaba unindo Maya e Raj, mas isso só em parte é solução, pois, ignoram que ela casa-se grávida de Bahuan, inclusive Raj, que, por seu turno, casa-se amando Duda, uma brasileira também grávida deste. O casamento pode salvar a vida de Maya (mulher paga com a vida se unir-se a um “intocável”), mas não evita uma série de desdobramentos. Ressaltem-se, em suma, os lugares-comuns e clichês que estruturam o gênero: triângulo amoroso, amores proibidos, gravidez fora do casamento, infidelidade conjugal, conflito de gerações, camas e lençóis. No caso presente, porém, há um ethos ou atmosfera emergindo como marca distintiva e permeando o universo da novela. Em primeiro lugar, a ação transcorre em contextos espaciais bem afastados, geográfica e culturalmente falando, correspondendo aos habitat de origem dos protagonistas, que são Brasil e Índia. Donde os dois países partilharem as locações e os espectadores poderem acompanhar as cenas que se desenrolam tanto lá quanto aqui, graças à magia do “faz de conta”.  Verificam-se também outras fórmulas e estratégias que realmente garantem algo de distintivo, muito tendo isso a ver com os ecos da cultura do outro país.

   

E eis, então, mais um artefato cultural, ou seja, uma história narrada em imagens, tudo conforme os moldes e cânones antropológico-sociais que a estética das imagens de massa requer.

   

Realmente, vivemos uma civilização de imagens. Elas saturam os ambientes da cidade, rodeiam-nos por todos os lados, colam em nossa pele e com elas vivemos nosso cotidiano. Constituem característica das sociedades contemporâneas, e a sua razão de ser tem a ver com o colossal império da indústria cultural, ou com os sofisticados aparatos e tecnologias dos meios de comunicação e informação vigentes.

    

O raciocínio, em suma, é que, em nossos dias, cinema, televisão, computador, vídeo-games, teatro, jornais, outdoors e uma crescente proliferação de revistas e fotos, qual império orquestrado, tornam possível um mundo “recriado”, e mais que isto, um mundo “manipulado”, “transfigurado”, espetacular. Isso se torna tão mais evidente quanto mais associarmos tal saturação de imagens aos dispositivos da propaganda e marketing, com o seu formidável poder para intensificar ou “hiper-realizar” o mundo de modo mágico, mitificado, virtual e espetacular.

  

Indagações nos acodem acerca dessa vontade de ficção, mais especificamente, a respeito dessa fenomenal aceitação das telenovelas por parte da população brasileira. Tal se deveria ao vácuo educacional que assola o país? (Pouca educação e muita novela, os males do Brasil são?). Residiria na tendência que marca a natureza profunda e essencial do homem de um modo geral, de não suportar muito a realidade? Várias respostas podem ser acionadas, mas, sem dúvida, comprova-se a índole do homem para produzir ilusões, auto-enganos e ficções; em suma, a necessidade irrefreável que ele demonstra para “desprender-se” ou “descolar-se” dessa realidade, aliada a outro elemento que ajuda elucidar, dar pistas, para a compreensão do fenômeno: o viés demagógico flagrado nos meios de comunicação de massa que os fazem bajular e enganar o povo.

  

O culto da novela apodera-se dos lares, usurpa-lhes o horário nobre, toma lugar indevido nas mentes e corações. A novela cria e propaga um culto do corpo, mas, paradoxalmente, quanto mais faz isso, mais vemos o corpo ser abusado e profanado. Quanto mais brilham seus astros e estrelas, menos se tem consciências cidadãs, mais a vida é banalizada, mais aviltada se torna a liberdade e mais grassa a servidão. Vê-se que se faz impossível final feliz.

  

O contexto social, porém, propicia o consumo das imagens, torna-se, pois, fértil

para proliferação das telenovelas - invenção que carrega de modo privilegiado uma das tendências mais incontestes das nossas sociedades, que é o de produzir e vender paraísos artificiais em larga escala. O vazio que fende o coração do homem significa fomes infindas, sendo a mais premente talvez a fome de elevar a alma à Verdade. Mas, o que lhe oferecem? Oferecem-lhe promessas de coisas materiais, de prazeres e regalos para o ventre, o sexo e os olhos. Oferecem-lhe vacuidades que não saciam sua fome. O homem tem ânsia de eternidade, de absoluto, de transcendente. Mas, que tipo de transcendente lhe é apresentado? Magias, bruxarias, horóscopos, ocultismos, curandeirismos, drogas e o que o valha. Nosso ambiente sócio-cultural efetivamente favorece o surgimento de empulhadores, de conselheiros, de vendedores de felicidade fácil e “levanta astral”; eles se fazem presentes nas mídias, nas calçadas das ruas, nas igrejas, nos consultórios, nas livrarias, nas portas de escolas, em motéis, botequins.

     

É nesse contexto que a novela Caminho das Índias se esclarece de modo pleno.  Está repleta de cenas explícitas de simpatia pelo hinduísmo, religião de incontáveis deuses - Brahma à frente – de maneira tal que fica assegurada ao espectador iniciação nos ritos, nas queimas de incenso, nas técnicas de respiração e de meditação, assim como nas expressões daquela religião: “chakra”, “mantra”, “guru”, “iogue”, “carma”,“iluminação”, “purificação” ,“nirvana”. Sabemos que novela é novela e vida real é vida real. Mas, num país suscetível a acender velas prá tudo que é santo como o Brasil, os efeitos dessa novela são óbvios. E, para ficar no âmbito do culto religioso, convém lembrar que o gosto pela espetacularização por via das imagens, originário do espaço profano, atualmente invade o sagrado, adentra às igrejas. Há cultos evangélicos que primam pelo jogo de cenas, a teatralização e o “reality show” e pouco pelo preceito bíblico do culto racional.

  

A ocasião se ofereceria ímpar para meditação sobre as “questões sociais” da novela, de que é exemplo a glamourização da Índia como sonegação da verdade. Também o fosso social que separa os grupos humanos na Índia (marajás numa ponta, intocáveis noutra), fosso que se cava hoje por toda parte – sem paralelo na história – entre os que são “globalizados”, isto é, os que podem participar ou ter liberdade de deslocamentos no mercado global, graças ao dinheiro (não importa a origem deste; em Dubai tanto o escroque Cadore quanto o intocável Bahuan, podem trocar de pele feito cobra) e os “localizados – os que estão fixos na sua localidade, confinados a uma territorialidade forçada e descritos tantas vezes como “descartáveis”, “inúteis”, “redundantes”, “refugos globais”.

  

Interrogações. Brahma ou Cristo? Caminho das Índias ou o Caminho, a Verdade e a Vida? Nestes tempos de Missões Mundiais o povo batista há de se comover com a Índia – comover-se com o seu verdadeiro caminho, que está aberto para o envio de obreiros. Pois, o da novela é, de fato, desencaminhamento do evangelho de Jesus - a única solução para as forças que dividem os homens entre marajás e intocáveis, entre “globalizados” e “localizados”, os de Dubai (em cada cidade brasileira, há condomínios-Dubai) e os moradores de rua.

(Publicado no O JORNAL BATISTA DE 26/07/2009, P. 14)