MORO TEM RAZÃO, MAS ...

Eis que, subitamente, surge Sérgio Moro, duplo de implacável juiz e modo corajoso de ser homem. Alguém já disse que, quando a história precisa de um grande homem, ele aparece; aí está, ao que tudo indica, um caso dessas raras aparições. E ele surge, de fato, em hora decisiva, tal qual aguardado médico a quem incumbe proceder cirurgia de urgência.
É um bravo: ousa mover-se na contramão do poder, vale dizer, ousa enfrentar hordas de cascateiros e larápios que infestam nossas instituições e palácios. Daí haver se tornado nome que não sai dos lábios do povo.
E de onde Moro extrai vigor para tal proeza? Eu já o digo: é da verdade (“aletheia”, lembra-se?), da cristalina verdade, que vem a ser, sabemos, a substância primeira a fundamentar qualquer Constituição e que, de resto, é pré-condição para uma boa sociedade e a própria vida. A sabedoria judaica anotou isso em termos precisos: “Três coisas sustentam a existência do mundo – justiça, verdade e paz”. Advém disso que um bom entendimento acerca de Sérgio Moro requer apreciação de duas virtudes básicas de alguém comprometido com a verdade. E tanto melhor se essa apreciação recorrer ao que diz Bernard Williams, pensador inglês, ao assinalar que a primeira dessas virtudes é a exatidão. Esta, segundo Williams, engloba um conjunto de atitudes ligadas com a investigação e descoberta da verdade, assim como o empenho de “fazer as coisas certas”. A outra, é a sinceridade, que compreende méritos ligados “à comunicação das verdades a outras pessoas de maneira honesta.”
Moro dá mostras de que é possuído por essas duas virtudes - exatidão e sinceridade – ou, numa palavra, pela verdade. Mostras de que o seu partido, a sua ânsia, divisa e diretriz está em apreendê-la, em desentocá-la, onde quer que ela se oculte. Mas não fica apenas na sua apreensão - coisa em que, de fato, tem logrado êxito. Uma vez de posse dela, há o imperativo da sinceridade impelindo-o à publicação, em proveito da própria verdade, do interesse público, em face dos riscos em jogo, da fidelidade devida ao país e à história e em respeito à própria consciência.
E a preciosa aletheia que ele trouxe à baila faz lembrar o imperecível princípio do Evangelho: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” A de Moro também fulgura, se impõe, convence, desperta, liberta e avança; em torno dela o brasileiro de bem e Moro se encontram unidos e identificados.
Há, dir-se-ia, atos da parte de Moro que são reprováveis ou inaceitáveis. Ora, mas tais atos se devem, precisamente, ao ardor por transparência que é próprio aos justos juízes, principalmente em tempos de grande indignação ante a escalada da mentira e de mentirosos arruinando, a partir de dentro, a nossa República.
O problema é que a verdade divide mesmo os homens. Vemos agora um amplo mostruário delas. Há a de Brasília, a de São Bernardo do Campo, a de Alagoas, do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e, por aí, vai. Os trajes diferem, mas todas tendendo a tomar cores de interesses particularistas. Elas nos confundem. Por isso, a verdade de Moro nos convém, e ela é muito mais apaixonante. Primeiro porque, aos olhos do povo, revela-se mais coerente com os fatos e provas. Depois, em razão da sua força atordoadora sobre aquelas paragens de onde vem as demais, isto é, pelo desconforto que tem gerado nos autores delas.
O título deste texto parodia o que afirmou Voltaire: “Sócrates tem razão, mas Sócrates está errado em ter razão tão em público.” O fato histórico é por todos conhecido: a verdade de Sócrates tinha outras companheiras – verdadeiros falsos brilhantes disputando a consciência dos atenienses. Estava tudo certo até o dia em que Sócrates ousou trazê-las à luz do dia, desmascarando os empulhadores e demagogos que as fabricavam. A frase irônica de Voltaire, quase zombeteira mesmo, concerne ao modo temerário pelo qual Sócrates – o porta-voz da Justiça - expunha ao público os malfeitos dos poderosos, o que acarretou-lhe cárcere e execução. Voltaire nos instrui; faz pensar que fazer as coisas certas, nem sempre, significa estar certo. Especialmente no Brasil, país de carnaval e malandragens, isto é, de “um mundo ao inverso”.
Os educadores – partícipes na arena das lutas políticas (queiram ou não!), faríamos muito pouco se apenas apoiássemos Moro; a hora crucial exige nossa palavra e ação a favor dele. A “república de Curitiba” está construindo um horizonte de esperança para o Brasil, na feliz expressão de um teólogo e educador, ao apresentar Delton Dellagnol, Procurador Federal e coordenador da equipe da Operação Lava-Jato, como palestrante numa reunião realizada recentemente em Santos, SP.
(Publicado no Jornal Comunhão, abril de 2016 e no Jornal da APASE, julho de 2016)
NOTA - Muita “água” rolou na história política brasileira depois da publicação do texto acima, de modo que, há anos, venho pedindo: “esqueçam o que escrevi sobre Sérgio moro”.