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O LEGADO DE LÉA: VIRAR SEMENTE E FRUTIFICAR

Eram onze horas e quarenta e cinco da noite quando Léa cruzava algumas ruelas apertadas e escuras, de volta da escola. O itinerário que fazia naquela noite, voltando para o casebre simples onde morava na favela, era alternativo; adotara-o nos últimos dias atendendo a conselhos da avó e de colegas. Um bom pedaço do trajeto, porém, fora feito caminhando a pé, como sempre, pela Estrada das Lágrimas – uma via de intenso movimento e com boa iluminação, em companhia de um grupo de colegas. Ao atingir um determinado ponto do percurso, separou-se do grupo e adentrou à favela, por uma das inúmeras vielas de acesso, e acelerou os passos porque ainda tinha cerca de 400 metros a percorrer.

Léa cursava a 7a. série do ensino fundamental, período noturno, na escola M1. Era uma moça bonita, sociável e alegre, de 16 anos de idade, e fazia quatro anos que passara a morar com a avó em Heliópolis, depois que os pais se separaram e a mãe fora embora, de volta para a casa dos pais no Nordeste.

Naquela noite, voltando para a casa, Léa seguia com fome, pois, como sempre acontecia, ia para a escola direto do trabalho sem jantar. Mas não era só a fome e o cansaço que a fazia andar a passos apressados. Havia um outro motivo, e este a fazia seguir apreensiva, em alerta e com medo. Tratava-se de Valdão, o ex-namorado, com quem rompera, ao saber que ele era traficante de droga. Apaixonado e inconformado, Valdão continuou procurando e insistindo com Léa para reatarem o relacionamento. Como esta – já namorando outro rapaz – recusasse, Valdão passou a ameaçá-la de morte. No começo, Léa não levou muito a sério as ameaças, mas, a partir de um encontro que teve com ele, quando ouviu falsas acusações de que ela o teria denunciado a um chefe de tráfico inimigo, Léa mudou de ideia. Sentiu que ele não ficaria só nas ameaças. Notou em Valdão uma perigosa mistura de ciúme, ódio, droga e arma, e percebeu que, de fato, corria risco de vida. As perseguições e os recados que recebia constantemente transformaram a sua rotina; teve de alterar os horários e os trajetos costumeiros, tanto para ir quanto para vir do trabalho e da escola. A verdade é que Léa agora vivia assustada e em estado de sobressalto permanente.

Porém, é como já disse um jornalista, em uma favela, qualquer trajeto por onde se tenha que passar, existem sombras, existem cantos, existem becos e vielas, existem lugares sem formato ou desfigurados, mas sempre chamados de ruas. E foi em um desses becos de sombras que Valdão se escondeu naquela noite, e ali permaneceu à espreita, aguardando Léa passar. Ela nada percebeu, e, em fração de segundo, o vulto saiu do esconderijo, plantou-se à sua frente e barrou-lhe os passos. Valdão não disse nada e já foi atirando à queima-roupa. Cinco tiros no rosto de Léa, que desabou instantaneamente. Livros e cadernos da estudantes agora estão também sobre o chão. O assassinato de Lea era mais um caso, repetido tantas vezes em Heliópolis, que tinha a droga como elemento precipitante principal. Uma história triste, a de Léa. Mas, afinal de contas, é de se convir que “não existem boas histórias que tenha a droga como pano de fundo” .

Naquela mesma hora, sua avó a aguardava com um prato de comida quentinho sobre a mesa. E foi também aquela, sem dúvida, uma das últimas vezes que o casebre humilde teve fogo aceso. Porque, com a morte de Léa, a vida da avó e da irmã com quem morava, nunca mais foi a mesma. Houve tempos em que elas constituíam uma família unida. Ao se transferirem para São Paulo, traziam esperança e sonhos de vencerem na cidade grande. O estudo e o trabalho honesto faziam parte desse sonho. Depois de incessante busca, o que conseguiram? Que oportunidade lhes foi oferecida? Na vastidão da cidade, não houve lugar para elas; a família foi empurrada para o desemprego e para aquele casebre de Heliópolis, em uma favela, que, nas palavras do jornalista já citado, pode muito bem ser a antítese dos sonhos de alguém: lugar mais barato de morar, para onde os mal-aventurados são empurrados, chamando de casa o barraco, de quarto o tapume de madeira. As ruas nem poderiam ser chamadas de ruas, mas que assim seja, e ali imperam o contraste, o desigual, a miséria tornando a pobreza, apenas, uma forma de estabilização social. Porque a pobreza nem sempre houve e miséria é invenção do nosso tempo, o tempo do avanço e do recuo, da tecnologia e do empirismo, dos apartamentos de cobertura e condomínios de luxo contrastando com a sobrevivência transformada em um milagre de cada dia (...) o choque do nada ter contrastando com as belezas dos templos de consumo da cidade (...) A cidade, o reino dos shopping centers, onde um ser humano mal vestido é visto como sinal de ameaça e perigo iminente.”

A família de Léa dissolveu-se na cidade grande. Com a sua morte trágica, ocorrida a 4 de junho de 1999, os remanescentes - a avó e a irmã - fizeram o caminho de volta à terra natal. Para elas, os sonhos trazidos haviam se convertido em pesadelos.

Mas, Léa deixou um legado. Sua morte “viraria semente e frutificaria”, no dizer do diretor da  escola M1. Se a vida da avó e da irmã não foi nunca mais a mesma, é possível aplicar o mesmo dito para a escola M1, e, em certo sentido, para a região de Heliópolis. Sua morte foi transformada numa espécie de simbólica de todos os casos similares que já ocorreram ali. É que, no dia seguinte ao crime, Vital, diretor da M1, acompanhado de dois professores, compareceu ao velório. Ao ver o rosto irreconhecível de Léa, o diretor teve uma crise emocional, que o levou a deixar o recinto às pressas, repetindo nova e novamente: “nós somos omissos!” “nós somos omissos!”. Em seguida, dirigiu-se a um dos professores e disse: “Nós sabemos de tudo isso, e o que estamos fazendo objetivamente para estar unindo as pessoas pra lutar contra isso? Nada! Nós somos omissos!”. Finalmente, indagou: “Você topa ajudar a organizar uma caminhada pela paz?”.  O professor respondeu afirmativamente.

Naquele mesmo dia, e também nos que se seguiram, os dois entabularam os preparativos para um movimento pela paz. Contataram as principais lideranças comunitárias do bairro e percorreram as escolas da região, convidando-as a participarem. “Estamos juntos”, disseram ao diretor da M1. De imediato, acertaram a realização de uma caminhada, envolvendo moradores, alunos e professores de nove escolas públicas da região (estaduais e municipais), cujo percurso deveria, obrigatoriamente, incluir o interior da favela. E foi assim mesmo que aconteceu. A primeira caminhada, em 1999, contou com a participação de 5 mil pessoas, mas trata-se de um acontecimento que vem se repetindo, tornando-se um dos principais eventos anuais do calendário das escolas e dos moradores da região, chegando, em uma delas, a reunir 10 mil pessoas e merecer destaque na grande mídia. O autor destas linhas participou da última, ocorrida no dia 4 de junho do ano em curso, e testemunha que viveu cenas profundamente tocantes.

Muita gente participava vestida de branco e portando uma flor de girassol (símbolo de Heliópolis), que a passava a alguém durante o trajeto. O gesto tornava-se particularmente significativo quando ele ocorria na favela, entre pessoas que assistiam, comovidas dentro de seus casebres, a passagem da enorme procissão, e as outras que, talvez, nunca poderiam imaginar que, um dia, pusessem os pés naquele chão da favela. Porque a caminhada tem isso também de positivo: é um evento que reúne pessoas de fora e de dentro da favela, e, ainda que por um instante, na passagem da procissão, elas podem trocar olhares, acenos, gestos e emoções. Alguém pode oferecer a alguém a flor da paz.

Tem mais. A caminhada circunscreve-se em um movimento que foi criado chamado “sol da paz”, criado em decorrência do assassinato de Léa, e de responsabilidade das nove escolas envolvidas, mais algumas entidades do bairro. Entre as atividades que promovem, destacam-se a separação de um dia - que é 10 de outubro - para trabalharem a paz, o estudo nas escolas do livro Paz Também se Aprende e a realização, no ano de 2002, de um fórum sobre a paz, cada mês em uma escola diferente. É de lembrar também que, na escola M1, durante os trinta dias que antecedem a caminhada da paz, ouve-se, em uma determinada hora de cada período, o toque de um sino. Nessa hora, a escola toda pára, fazendo um minuto de silêncio, em gesto simbólico pela paz.

É evidente que o movimento “sol da paz” não fez desaparecer a violência dentro da escola M1. No dia 9 de dezembro de 2002, uma segunda-feira, ao chegar àquela escola para assistir a uma reunião de conselho de classe, encontrei vários professores chocados, comentando ao assassinato, ocorrido na sexta-feira anterior, de um ex-aluno, de 16 anos, ao qual se referiam como muito inteligente e promissor, até o dia em que começou a se envolver com drogas. Mais recentemente, no segundo semestre de 2003, aconteceu um disparo acidental de uma arma de fogo dentro de uma sala de aula, em que cinco alunos estavam envolvidos, incluindo um que foi atingido. No momento em que escrevo estas linhas, ele ainda estava hospitalizado aguardando operação para extrair uma bala alojada em parte do seu corpo. No entanto, é inegável que os efeitos advindos do movimento nunca poderão ser subestimados. O que ele está conseguindo no processo de construção da paz na região representa um tremendo avanço.

 Há muito a ser apreendido na iniciativa do diretor e da sua escola M1, geratrizes da caminhada e do movimento pela paz. Porque, para além do ciclo de eventos e de ações que se seguiram ao acontecimento trágico, e até mesmo para além da simbologia que esses eventos e ações carregam, há o mérito inconteste das motivações dos agentes que o conceberam. Não se tratando aqui de aprofundar a questão, cabe, ao menos, chamar atenção para o significado real e prático que a atitude do diretor e seu grupo aponta. E o primeiro dado a ser visto é que esses agentes voltam-se corajosamente a sem evasivas para os problemas do seu contexto imediato. Percebem algo coletivamente. Algo que os afeta profundamente, que é uma ameaça real e que está bem próximo deles. Nesse momento, parece que conseguem superar o medo e as divergências menores entre eles e voltam-se para a realidade cheia de desafios que têm diante de si. Notam que lidam com uma coisa muito séria. É – nada mais, nada menos – que a droga e o aniquilamento da vida.

Mas decidem não recuar. Juntam-se em vínculos de coordenação e concatenação em torno do problema comum. Entrosam-se e completam-se mutuamente entre si no enfrentamento dele. É quase uma descoberta o que ocorre na M1. Descoberta de si, do outro e da própria capacidade de mobilização para enfrentar as grandes questões destes tempos difíceis. Mas, exercitado, esse processo vinculante, que põe professores, alunos e pais de alunos diante uns dos outros, é enriquecedor em vários aspectos.  De imediato, ele fortalece a coletividade. Isto porque, tanto os embates e mobilizações quanto as exigências que lhe são postas para vencer o medo e as evasivas, resultam em revitalização. Daí ser justo reconhecer que o processo também favorece a auto-produção ou a constituição identitária da coletividade em questão.

Contudo, creio que se faz necessário salientar também um outro sentido na atitude dos agentes que originaram o movimento pela paz, o qual se reveste de enorme importância. Trata-se da mensagem que ela endereçou aos seus vizinhos de favela. Mensagem eloqüente, em cujo conteúdo flagra-se mais que um simples reconhecimento da existência desses vizinhos – nele existe, de fato, uma profunda declaração de interesse por aproximação e mutuo entrelaçamento. E o modo pelo qual foi transmitida, revelou-se eficaz.

Muita gente – pelo menos na M1 – passou a ser mais flexível com relação às fronteiras que dividem os que moram e os que não moram na favela. Condições ambientais são criadas para que a escola se organize sob novas premissas, resultando em ações mais construtivas na localidade.