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ESPETÁCULO E IGREJA

Nilberto de Matos Amorim
a group of people standing in front of a stage

Dez mil pessoas se acotovelavam em um cemitério dos Estados Unidos quando do sepultamento de empresário do showbusiness americano, morto em desastre aéreo. Mas, o afluxo de tão grande público devia-se menos ao apreço desse público pelos predicados biográficos do falecido do que aos efeitos do noticiário da grande mídia nacional – martelando nos dias anteriores o desaparecimento e queda do avião – sobretudo, devia-se à presença de celebridades cinematográficas no local, entre as quais a da própria viúva, estrela de primeira grandeza e considerada, à época, a mulher mais bonita do mundo. E por mais que esta tentasse se esconder dos olhares, ao abrigo de uma tenda, mais ouvia a multidão – grande parte dela devorando quantidades de batatas fritas e coca cola - gritando em coro o nome dela e pedidos de “apareça!” “apareça!” “Só uma olhadinha!” Por fim, guarda-costas algum pôde evitar que a famosa viúva não tivesse arrebatado o xale que lhe cobria a cabeça por um grupo de caçadores de souvenirs.

      Ora, as multidões, por vezes, tendem a perder o senso e a cometer desatinos. Estamos falando de uma que não sabe discernir entre a conduta devida aos ambientes de luto e aquela que é própria aos piqueniques ou aos ginásios de esporte, de uma que comparece a cemitério demonstrando descomunal déficit de coração ou cérebro, mas com excesso de olhos, por assim dizer – olhos ávidos pelo que é sensacional e espetacular. Cena, de resto, muito consistente com a civilização em que vivemos, tão notável pela disseminação de formas de vida bizarras, de indivíduos invertendo sinais e atropelando os campos de sentido da convivência humana. E não seja esquecido que o ambiente – as sociedades que compõem a atual civilização – tem como fazer a delicia dessas multidões, cevando-as a partir dos olhos à base de “banhos de imagens”, preferencialmente de mercadorias, mas também de assassinatos, estupros, assaltos, pedofilia, guerras, bebidas alcóolicas, armas.

     Contudo, em se tratando dessa civilização, quem tem muito a dizer é Mário Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura peruano e naturalizado espanhol, em A Civilização do Espetáculo – uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura (São Paulo, Editora Objetiva Ltda, 2013. Eis livro que exige toda consideração, não só pela excelência da análise crítica, da radiografia perfeita das sociedades contemporâneas – mais especificamente, da cultura que elas refletem -, mas também por constituir manifesto corajoso contra os vícios e deformações que as acometem. Que o leitor cristão o examine detidamente, aquilatando o que nele consta sobre o papel que teve o cristianismo enquanto esteio fundador da civilização ocidental, o quanto ele moldou esquemas de percepções, de ideais, valores estéticos e éticos, o como fez surgir formas de cultivo do espírito; que se compenetre, por isso e muito mais, da força plasmadora da fé cristã em obras artísticas, literárias, sociais, econômicas, políticas. Examinar também as trágicas consequências daquilo que se convencionou chamar de “a morte de Deus”, isto é, do rompimento dessa civilização com as fontes nutridoras da vida espiritual e moral, só possíveis, em última análise, com a religião (o próprio autor salienta isso). Que se detenha no destaque dado por Llosa ao fenômeno da violência, integrante do séquito dessas consequências – “desencantamento”, “mal-estar”, “nihilismo”, “tédio”, “grande bocejo”, desespero”, “vazio”. Pois, de fato, e consoante o convincente autor, o deslocamento da fonte nutridora da religião para a política ou o poder secular teve como desdobramento imediato a violência social, cujo ápice é atingido com as grandes monstruosidades e campos de morte do século XX. Mas, Llosa vai além, com o atribuir a origem dos males atuais de corrupção, fraudes, tráfico de influência, criminalidade, impunidade etc. ao desmonte do lastro espiritual e moral inerente à religião.

       A tese central do livro, porém,- e sempre alicerçada no mesmo referencial daquelas perdas morais e espirituais de base - é a deterioração da cultura e o aparecimento da civilização do espetáculo. Civilização do espetáculo? É aquela em que o entretenimento reina como supremo valor; em que o divertir-se, o escapar do tédio, constitui lei e paixão. Llosa é esclarecedor, definindo-a como a “banalização da cultura, generalização da frivolidade e, no campo da informação, a proliferação do jornalismo irresponsável da bisbilhotice e do escândalo.” É claro que a noção inclui a primazia do visual, ou seja, da cultura das telas – blockbusters, videogame, tv, telefone celular -, sob cuja égide o pensamento, a palavra, e a figura do intelectual encontram seu túmulo, substituídos que são por histriões, futebolistas, atores de cinema e de novela, líderes de seitas religiosas, cantores de rock, falsos artistas e ilusionistas de toda ordem. 

     Por consequência, e conclusão, o livro em tela implica as igrejas de um modo geral. Embora declarando-se não-religioso, o autor faz pronunciamento sobre o fenômeno da musicalização da cultura, de que a igreja cristã não escapa: “... se inverte, secularizado, o espírito religioso que, em sintonia com o viés vocacional da época, substituiu a liturgia e os catecismos das religiões tradicionais por manifestações de misticismo musical: assim, no compasso de vozes e instrumentos exacerbados, que os alto-falantes amplificam monstruosamente, o indivíduo se desinvidualiza, transforma-se em massa e, de maneira inconsciente, volta aos tempos primitivos da magia e da tribo. Esse é o modo contemporâneo – muito mais divertido, por certo – de alcançar o êxtase que Santa Teresa ou São João da Cruz obtinham através de ascetismo, oração e fé”.        Guardadas as devidas proporções, as formulação do prêmio Nobel coincide com as do pastor Júlio de Oliveira Sanches no corajoso artigo “A Ditadura dos Decíbeis (Jornal Batista, 10/08/2014, pg.3), referindo-se ao estilo e conteúdo da música que predomina nas reuniões convencionais da denominação e do qual recolho estas linhas: “Culto significa comunhão, edificação e oportunidade para ouvir a voz divina. Hoje as músicas são estressantes. Os solistas disputam para ver quem grita mais alto. O baterista quer suplantar a guitarra. A guitarra o baixo. O dirigente suplanta a todos, com aleluias fora do contexto”.

      Como quer que seja, cada vez mais, torna-se visível a interpenetração em nossas práticas de culto daqueles elementos típicos da cultura que Vargas Llosa deplora. E quando isso acontece, pior para os ambientes de culto. O resultado só pode ser a volatilização do temor e reverência que uma casa de oração deve infundir; o sentido de santuário decai da sacralidade para a ritualística de teatro; a sublimidade da Palavra, da transcendência e da vida do espírito degenera-se em performances de palco; a centralidade de Cristo se confunde com o louvor – louvor rocambolesco, veja-se bem!, no qual adoradores, não raro, põem-se a fazer contorções corporais dignas de Madona ou de Michael Jackson.

     Pela sensatez, os Llosas e os Julios Sanches são muito benvindos com suas mensagens.