ENGANOSO É O CORAÇÃO
Bem antes do surgimento da Psicologia, sistematizada e encorpada no século xix enquanto ciência, a Bíblia já fazia afirmações que desafiam o maior dos seus epígonos. Eis um exemplo: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer?” (Jr. 17:9).
Na verdade, a antinomia coração versus razão coloca-se desde o início dos tempos. Refere-se a certa tensão existente entre as duas instâncias que governam a espécie humana. De um lado, a área afetiva, de outro a cognitiva. Ou, dito de outro modo: sentimentos, emoções e impulsos, por um lado, e intelecto, juízo, lógica, luz racional, por outro. Até que ponto elas constituem realmente unidades opostas ou estanques entre si, é difícil de se precisar, mas a distinção a ser feita entre ambas é ponto pacífico. Uma e outra estarão por detrás de cada ato do indivíduo, e é o equilíbrio ou o desequilíbrio de doses que fará dele um ato racional ou passional.
Em sendo, portanto, o coração e a razão as duas dimensões fundamentais que comandam o comportamento do homem, seria instrutivo uma reflexão sobre qual dos dois representa a maior fonte de motivação, isto é, qual dos dois dita ou causa a maior parte de nossas ações. Isto nos conduziria a uma ideia sobre aquilo que realmente somos.
Ora, há muito sabe-se que o aspecto afetivo é preponderante; que é coração (sentimentos, emoções) que nos move em quase tudo que fazemos. Freud explicou isto muito bem (sua tese sobre o princípio do prazer), mas qualquer um pode fazer sua própria comprovação: basta reconhecer o poder da voz do coração em sua vida, ou, simplesmente, ter olhos para ver os absurdos e os irracionalismos de nossa era absurda. Para ser convencido disso, será de grande ajuda, lançar um olhar na história: os holocaustos, Hiroshima, as inquisições.
E há etapas da vida, principalmente a adolescência, em que o coração impera mais tenazmente. Idade do alvorecer, do colorido especial e aguçado, a adolescência é a idade do próprio coração. É quando, enamorado da vida, o jovem busca sensações, experiências e emoções; quando é comum a procura de prazer a todo custo, a ânsia por sensações novas e diferentes. De certo modo, é ela também a fase mais vulnerável do indivíduo: corre o risco de ser invadido através do coração pelos vícios, más companhias, drogas, pornografia, orgias. E, de fato, frequentemente isso ocorre.
Na verdade, mesmo ao atingir o estágio da maturidade, a chamada idade da razão, continuamos inclinados a obedecer aos ditames do coração; e isso por uma questão de lei do menor esforço. Por ser mais cômodo e mais agradável – somos hedonistas inveterados. Sem falar na aparente impotência ou lentidão que tem nosso intelecto de organizar e assimilar a complexidade do mundo e de certas situações em que acabamos vencidos por pulsões interiores. Por isso tudo, ousamos afirmar, é o homem, em qualquer idade escravo do próprio coração, sendo arrastado de cá para lá por seus caprichos e poderes.
E se tocássemos na questão do bem e do mal, que muito bem poderia aqui emergir por causa de sua pertinência com os misteriosos desígnios do coração humano, não haveria distinção de idade a ser feita. A Bíblia, ao tratar em diversos pontos sobre ele, o faz de modo genérico, apresentando-o (tremam!), como a origem de todo mal e de todos os desvarios humanos. Enganador, corrupto e insondável em sua natureza – eis o alerta das Sagradas Escrituras em passagens como a supra citada.
De fato, enganos e ciladas brotam do coração. A luz da razão direciona o homem para os bons propósitos, mas, com que frequência, as forças do coração tramam e atraiçoam – negando-lhe assentimento! Com que frequência a tirania do coração cala a razão, e comete-se o mal que, depois, se paga com lágrimas.
Há mil perigos no coração. É inconfiável, desesperadamente corrupto e, acima de tudo, inacessível. Não é possível o acesso em seus recessos e recônditos. Piloto algum tem carta de navegação para essa misteriosa região de seu próprio ser, repleta de variações, instabilidades, oscilações, inconstâncias e turbulências: aí, volta e meia, somos apanhados de surpresa por geleiras glaciais, tanto quanto por calor de fornalha, ou, senão, por asperezas de rochas e por terríveis vendavais. Calmaria ... só raramente.
Pensando bem, a sabedoria verdadeira, a ser perseguida por todos, em todo tempo e em qualquer idade, consiste em domar as estranhas leis alojadas no coração, e em evitar seus vícios e seduções. No entanto – que ninguém se engane – isso só é possível mediante o milagre da regeneração, quando uma nova lei é escrita no coração (Jr. 31:33). Em outras palavras, somente alcançam libertação do poder desse ardiloso e cúpido sedutor chamado coração os que se entregam Àquele que é o único capaz de esquadrinhar seus recessos, purifica-lo e habitá-lo – Jesus Cristo.
(Publicado na revista CAMPUS, da JUMOC, ano VII, no.43, jul. ago. set. 1992)