CUIDADO COM MULTIDÕES

Belas páginas da Bíblia são dedicadas ao Monte Sinai. Elas dão vulto ao lugar onde se verificaram eventos fundadores cruciais para o povo hebreu e para toda a humanidade. Põem diante de nós o ambiente em que Deus se fez plenamente presente como legislador máximo de todos os homens. Na marcha do seu povo rumo à Terra Prometida, Deus sempre se fizera presente na coluna de nuvem e na coluna de fogo, mas a culminância da sua manifestação deu-se no Sinai, ponto de encontro com Moisés para a outorga dos Dez Mandamentos e das leis.
Evidencia-se, portanto, que o significado do Monte Sinai vai bem além do elemento geográfico ou dos seus contornos físico-territoriais. Ele surge como ponto no qual se manifestam múltiplos planos de realidade.
Realidade é palavra muito usada, mas bem pouco compreendida. Com frequência, é associada ao mundo empírico, ao mundo físico das coisas concretas, externas à mente ou à consciência. Mas tal noção não exaure o seu significado, porquanto o ser humano, sabemos, vive numa estrutura de realidade completamente diferente daquela em que vivem os animais irracionais; na verdade, sua existência transcorre numa multiplicidade de realidades. De modo que o mundo dos valores, das concepções e dos ideais — daquilo que é pensado, imaginado e sonhado — enfim, o universo intrapsíquico dos sujeitos também constitui realidade ou realidades.
Por ser assim, diz-se que o ser humano se situa na tensão de um “entremeio”, ou seja, entre, de um lado, a realidade terrena e, de outro, a “realidade primeira” e fundamental, que é de natureza transcendental, divina e espiritual. O problema, no entanto, é que há uma recusa contumaz da parte do homem em aceitar essa realidade primeira — recusa que se acentua numa civilização que é emancipada da ordem espiritual. Tal recusa é compatível com “perda da realidade”, designação dada por autores não só a essa situação a que o homem se lança, exatamente a de recusar unidade com a ordem primeira e fundamental, mas também a de se pôr no lugar dela; a de substituir Deus pela própria vontade de poder, e também pelas conquistas de sua ciência e tecnologia.
De qualquer maneira, os eventos do Sinai configuram caso representativo da tendência humana de buscar as alturas. Quanto a isso, sobressai singularmente a figura de Moisés, que ascende ao topo do monte em momento decisivo de pacto ou aliança que ali se inaugurava entre Deus e o homem, entre as alturas celestes e a realidade das baixuras terrenas. Durante a condução do povo pelo deserto, o grande líder provara não poucos momentos de amargores, devido às rebeliões e aos riscos constantes de corrupção e fragmentação desse povo. O momento do Sinai, porém, haveria de viabilizar condições para que os israelitas se entrelaçassem como coirmãos e, em compreensão e em atos, zelassem pelo extraordinário patrimônio que lhes era comum. Ouso afirmar que Moisés buscava na “realidade primeira” os elementos de base para a construção de uma nação. Grande líder que era, sabia que governo algum há que possa prover lastros morais ou suportes para a edificação de instituições sociais confiáveis, ou sequer promover agregação de um povo em torno de projetos comuns e cooperativos. Sabia ele também que qualquer que fosse a forma de governo, para alcançar êxito, haveria de erigir-se sobre fundações de uma espécie diversa da sua, vale dizer, deveria fundar-se sobre plano que vai bem além dos míseros horizontes humanos.
O caso, porém, é que Moisés haveria de esbarrar em enormes obstáculos, a começar pelo próprio povo, que ele deixara acampado no sopé do monte quarenta dias antes. Dizendo melhor, ao retornar, Moisés deparou-se com parte desse povo afastada do conjunto e colapsada para o estado de multidão.
Ora, multidão é aquele estado em que a pessoa partícipe dela perde a condição de sujeito, troca de personalidade ou de identidade e é propelida pelas dinâmicas do todo coletivo. E lembremos que um dos elementos constituintes da multidão são as paixões, de que decorrem imenso poder de contágio emocional. Daí que as multidões, por vezes, tendem a perder o senso e a cometer desatinos. Estamos falando de uma que, diante da alternativa entre a elevação espiritual da aliança com Deus e a enormidade, a desrazão, da descida ao plano das baixuras do bezerro de ouro, optou por esta última — pela “descida”. Nessa medida, ela revelou-se escassa de capacidade em escolher e seguir líderes sábios, não lhe faltando, ademais, poderosos ardis com que cooptou Arão para efetivar seus objetivos desatinados.
É preciso cuidado com multidão. O seu fim pode ser a morte. A que Moisés encontrou no sopé do Sinai constitui caso exemplar: “Moisés viu que o povo estava desenfreado e que Arão o tinha deixado fora de controle, tendo se tornado objeto de riso ... e naquele dia morreram cerca de três mil dentre o povo.” (Ex. 32,25-28)
(Publicado no O Jornal Batista de 20-2-26, p. 3)