ALMA EM DESORDEM, ECOSSISTEMA EM DESORDEM: NOTAS SOBRE ECOLOGIA

Chama atenção o episódio de um filme mundialmente famoso em que a personagem central realiza o funeral de um macaco de estimação. Mas, ele pode provocar em quem assiste a ele uma boa dose de repulsa devido às demonstrações de pesar, de dor, de sentimentos desatados, choros descontrolados e gasto imoderado de recursos em rituais de luto e sepultamento observados na conduta da personagem. Porém, a repulsa se transforma em compreensão de que o produtor do filme se serve desse e de outros episódios para compor um quadro geral de transtornos de comportamento e de decadência que vitima a dona do animal morto. De qualquer modo, o produtor não deixa de apresentar em suas cenas uma visão do homem, mesmo que o faça de modo irônico, invertido, um tanto de ponta-cabeça; mesmo que esteja apenas ilustrando, por meio da ficção, o que se verifica na vida real, ou seja, condições em que gente se comporta de modo semelhante ao da grã-fina rica mostrada no filme. E a sua estratégia metodológica funciona, pois quem assiste às cenas sai convencido de que há algo de desordem, de excessivo, de inversão, na atitude de quem substitui gente por animal, em momentos profundamente humanos como é no caso de doação de afetos e de cerimônias fúnebres.
A menção desse episódio é para lembrar que toda teoria, toda ideologia ou obra de arte trazem uma visão do homem embutida. E as teorias sobre o meio ambiente, ou as ações dos grupos militantes da ecologia, não fogem à regra. Porém, em tais casos, quase sempre, a visão do homem não transparece com clareza; quase sempre é tênue, nebulosa, incongruente com a realidade dos fatos e com a verdade do homem. Portanto, deixam a desejar quanto ao requisito que vem em primeiríssimo lugar que é o de constituir bases firmes para programas de ação necessários e humanizadores. Sem falar que algumas delas lembram um pouco nossa personagem do filme; preocupam-se mais com a extinção dos bichos do que com a dos homens. Tal déficit, esse menos, soa estranho e paradoxal, tendo em vista ser o homem, afinal das contas, o agente e o beneficiário central das ações em favor do ambiente que se quer sustentável. Mais paradoxal ainda se se pensar que é no ambiente atual, produtor sem igual de lixo e dejetos, o lugar em que o homem está indo de roldão, virando detrito entre detritos.
O fato é que não há como examinar as questões ambientais sem um dimensionamento consistente e fundamentado sobre as questões do homem, tanto na sua realidade individual, dinâmica e complexa, quanto com relação às estruturas, ao meio sociocultural, material e imaterial que ele cria, altamente desfavorável à sustentabilidade ambiental. Tal exame se impõe, enfim, pois é no homem que estão as raízes e as explicações de todas as formas de desequilíbrios ambientais: sejam o excessivo individualismo, o desprezo pela vida, infanticídio, serial killers, guerras, terrorismo, suicídios, pedofilia. Sejam destruição em nome do lucro, a agressão e deterioração do meio ambiente, o envenenamento do ar, da água, das fontes e mananciais; a intervenção no ciclos da natureza; a toxidade que se respira nas cidades, ou a ganância de um modo de produção sem ética e sem pudor que compromete a sustentabilidade do planeta.
Assim, minha intervenção aqui se deixa guiar pela afirmação do título acima, um convite à meditação sobre esse homem, flagrando-o em três momentos de sua história que são decisivos para a compreensão tanto dele quanto do mundo por ele criado – principalmente o atual, recordista em determinados tipos de problema, sobretudo os relacionados ao ecossistema. O primeiro desses momentos compreende os acontecimentos do Éden; o segundo, os acontecimentos dos séculos 15, 16 e 17; e o terceiro são acontecimentos do mundo de hoje, o nosso mundo.
O Éden constituía modelar ecossistema que tinha tudo para o adversário cobiçar, pôr o olho gordo nele: primeiro, as duas almas. Capital de valor supremo, maior riqueza do mundo: “Uma alma vale mais que o mundo inteiro”. Depois, havia os tesouros do próprio meio ambiente – o jardim e suas riquezas materiais, mas, principalmente as imateriais/espirituais; a verdadeira riqueza: a presença de Deus, a bênção de Deus (a terra era abençoada), a beleza insuperável, sustentabilidade, a vida, ordem e harmonia entre Criador e criatura. A estratégia era a de se introjetar nas almas, porque, a partir daí poderia dominar o território/espaço/meio ambiente. A queda seria desordem instalada na alma do homem, o que significaria impacto devastador no mundo em volta. Mas, peço toda atenção para a espécie de discurso da serpente/encarnação do inimigo de Deus. É o do sapere aude (“ouse saber”, “tenha a coragem de saber”), discurso que tem muitíssimo a ver com o slogan da ciência da moderna, da modernidade iluminista mais especificamente. Havia dois discursos, duas palavras, dois logos antagônicos; a Palavra da Vida alertando “mantenha-se nos limites”, não toque na árvore, que é para o seu próprio bem”, e a outra palavra, a da tentação: “Ouse”, “seja como Deus”. A serpente mede forças com Deus, empregando o sapere aude (não confundir com o sentido empregado por Kant). Intento alcançado: a queda. Tremenda redução e degradação do homem, terrível baixa na excelência do seu meio ambiente. Com a queda, a maldição da própria Terra (esta recusa-se, resiste, é adversa), a feiura, a insustentabilidade, a morte. O homem agora conhece o mal, experimenta o mal, pratica o mal.
Mas, se é certo e sabido que tudo começa no Éden, este teve prosseguimento e desdobramentos nos acontecimentos e grandes transformações dos séculos 15, 16 e 17. Nesse período firmam-se as bases de nossa civilização atual. Surgem os humanismos e com eles a perda da visão metafísico/espiritual do homem e da natureza; a natureza perde a sacralidade e o homem é desespiritualizado. Impõe-se a visão bio-físico-químico-orgânica do universo, quadro em que o homem é compreendido apenas como um membro do reino animal, culminando, tempos depois, com as teorias que transformam o homem numa derivação de símios e macacos. Nisso tudo, a ciência moderna jogando papel determinante. Ela é bênção, só pode ser providência de Deus. Mas – assim sustento – há uma face dela que é ímpia e tem tudo a ver com o discurso da velha serpente do Éden. Apresenta-se com o mesmo sapere aude, tendendo sempre a medir forças com Deus, no sentido de negá-lo e substituí-lo, conquistando almas por meio dos seus pronunciamentos e explicações. E, de novo, verifica-se outra terrível queda, reducionismo e perda de dignidade do homem.
Por fim, o hábitat tão peculiar e tão próprio do homem contemporâneo, que é o meio ambiente urbano com os gigantismos das suas densidades demográficas, as mutilações, lesões infligidas na natureza das pegadas ecológicas – locais ou em partes distantes do planeta de que depende. Esse hábitat, tão peculiar e tão próprio, corresponde ao “meio-técnico-urbano-midiático”, invenção do homem, não tem nada de jardim. Na verdade, ele é extremamente insustentável. Ousadamente, afirmo que a vida nesse ambiente típico de nossa civilização é insustentável pela própria natureza. Esse “meio-técnico-urbano-midiático” vem a ser estruturas, sistemas e processos, ou, se preferir, são os universos político, econômico, técnico-científico e territorial que se configuram em verdadeiras potências intimamente entrelaçadas para regular, governar, determinar o comportamento humano, não apenas com relação à ocupação do solo, a administração dos espaços, mas também com relação à vida de um modo geral. Fico pensando se ainda não continua sendo válida e muito aplicada a velha estratégia do adversário, a de introjetar-se nas almas para, a partir daí, dominar tais universos, tais estruturas, sistemas e processos. Digo isso, principalmente por causa do modelo econômico triunfante, e regente de todos os outros setores da vida social. Parece que há empresários e empreendedores no mundo de hoje que ficam fascinados com a velha proposta que o usurpador fez a Jesus: “Tudo isso te darei se, prostrado, me adorares”. Topam a proposta e se tornam sócios do usurpador. De novo, as duas palavras, a Palavra da Vida “respeite a natureza, ela proclama a glória de Deus”; ela revela, patenteia, a existência de Deus; logo, admire-a, aprecie-a, contemple-a”. A outra, a da tentação: “Tudo isso te darei se …” Eu ignoro o que significa exatamente prostrar-se e adorar o diabo na área da economia. Caso signifique a criação de uma economia endiabrada, com imenso olho gordo sobre o meio ambiente, que vê a natureza a partir de equações de matemática, cifras contábeis e cifrões, que vê a natureza do mesmo modo, pilhando, saqueando e expropriando tesouros do meio ambiente; de um modo de produção sem ética e sem pudor, que opera destruição em nome do lucro, que agride e deteriora o meio ambiente, que envenena o ar, a água, fontes e mananciais; a intervém nos ciclos da natureza; que produz a toxidade que se respira nas cidades, então, está havendo tal adoração. E se o caso for seduzir almas com o “tudo isso te darei”, alardeando a mercadoria como objeto de culto e convertendo-as à religião do hiperconsumismo, então, tal adoração se torna cada vez mais visível. Caso signifique ter desprezo pelos seres humanos, explorar e subjugá-los cruelmente no regime da produção da mercadoria, ou fazendo-os milhões de outros irem de roldão, pelo ralo, feito refugo, lixo, então, tal culto está ocorrendo. E caso signifique violência, matança e morte, então, nem se fala. E o que dizer da cultura da violência, que é a marca registrada dos nossos tempos? O homem sempre derramou sangue, mas, nunca como o faz na atualidade (feminicídios, infanticídio, terrorismos). Derramar sangue humano é o pior tipo de poluição (leia-se isso no livro bíblico de Números 35:33-35).
O outro ponto é que estruturas técnico-políticas também integram aquele consórcio diabólico. Seus agentes se espalham por parlamentos, órgãos executivos, repartições públicas e principalmente pelas mídias e certas plataformas digitais altamente corrompidas. A pestilência disso põe em risco qualquer sustentabilidade econômica ou ambiental. Significado de tudo isso? Queda. Outra queda.