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A TEMÁTICA DA VIOLÊNCIA: ALGUMAS OBSERVAÇÕES INICIAIS

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 A comunicação procura tratar da questão da violência, apoiando-se, em parte, nos referenciais delineados por Michel Wieviorka, na obra O Novo Paradigma da Violência. Vê-se que esse autor, ao abordar a temática, observa quatro níveis de análise, e por tais níveis se deixa pautar ao expor suas ideias. Os níveis de análise são estes: a) O Sistema Internacional; b) Os Estados Nacionais; c) Sociedade (mudanças societais dentro dos Estados); d) Indivíduo.

Assim, reconhecendo o proveito que se pode extrair de tal referencial, procuraremos estabelecer algumas ponderações sobre a questão da violência seguindo de perto tal referencial ou roteiro. Em decorrência, a comunicação atentará para o primeiro nível, ou seja, o do sistema internacional. Trata-se aqui da perspectiva abrangente, de um olhar para o macro, para a dimensão global e planetária da realidade humana, considerando-se todas os múltiplos aspectos sócio-históricos. Haveria que reparar aqui para uma verdadeira galáxia de questões graves: a globalização econômica e suas consequências, a mundialização da “economia criminosa”, a enorme capacidade que tem o gênero humano, de um modo geral, para enquadrar, para gerar formas e normas de classificação do outro, práticas estas que separam, dividem, hierarquizam, determinam formas múltiplas de desigualdades entre povos e nações, resultando na negação do Outro.

Eis, então, os processos históricos de subserviência, exploração, dominação e violência. Com esse olhar mais amplo, pretende-se assinalar a globalização de uma cultura da violência. Em um segundo momento, no segundo nível, enfocaremos o Estado Nacional como locus ou produtor da violência. Privilegiando o caso do Brasil, há que se refletir sobre a instituição da violência, da tortura e modos de assassinato (os “esquadrões da morte informais”), sobre o declínio/superação do Estado e sua corrupção (promiscuidade público vs privado), privatização da segurança e repressão.  O terceiro nível de análise apresentado é o das sociedades no interior dos Estados-Nações.

Nesse ponto, julgamos útil proceder considerações a respeito da crise social, no que esta tem a ver com as identidades coletivas e a violência. Weviorka esclarece bem: (...) a crise social se combina com a questão das identidades culturais, nacionais, étnicas e religiosas, para alimentar violências que instigam, algumas, as tendências à fragmentação das sociedades nacionais, outras, os apelos relativos à mordem que se desfaz”. 

Enfim, uma oportuna ocasião para serem investigadas questões ligadas à construção e as consequências do multiculturalismo, e toda gama de manifestações de xenofobias, intolerâncias, preconceitos  de variadas matizes, que se traduzem em fenômenos de repulsa, rejeição, medo e reprovação de um outro, percebido como diferente, antípoda ou desigual. Por fim, o nível da individualidade humana. O nível mais desafiador, pois põe a questão, inclusive, da necessidade de uma meditação filosófica sobre a natureza humana em sua essência mais profunda.

É que a esfera básica e fundamental da violência está no individuo. Portanto, na comunicação buscar-se-á demonstrar que existe um ódio ou uma agressividade atávica, inerente à interioridade e à intimidade do ser humano. Por conclusão, encaminharemos notas sobre a necessidade de construção de uma ética fundada na dignidade da pessoa humana e no respeito à vida, aquela mesma ética que foi sonhada por alguns “pais fundadores” da modernidade.

(Resumo de comunicação apresentada no 3º Congresso Regional de Educação, Mogi das Cruzes, UBC, maio de 2001)